quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Categoria » Pilchas

Jogo de Osso

                        O jogo do osso ou taba, segundo  nos indica Heirich Bunse é de origem espano – platense como revela a pronúncia “tava”  termo usado  tanto na Argentina quanto no Uruguai. Entende-se por taba o jogo do osso, ou o osso propriamente dito com o qual se exercita o jogo. A  taba é um osso extraído do garrão do boi, quanto maior for o animal, oferecerá um osso de maior porte. Anatômicamente esse osso denomina-se de astrágalo. Nome de origem grega. Sabe-se que na Grécia antiga, astrágalo, além de denominar um tipo de osso  também significava dado diferenciando do cubo por ser marcado apenas em quatro  faces e o plural “estrágaloi”, era o  jogo de dados. O astrágalo é um osso  que mede aproximadamente 4×3x7 centímetros tendo nas suas faces longitudinais uma de forma mais lisa e outra com diversas cavidades e saliências, sendo esta a que  se denomina “sorte”, quando no jogo cai voltada para cima. Ao contrário desse procedimento, isto é, quando a parte mais plana fica voltada para cima é “culo”. Quando a taba fica com uma das partes laterais, quer dizer não foi sorte e nem culo, a jogada vale “nada”. Em certas oportunidades, em algumas regiões os praticantes do jogo do  osso preferem  fixar lâminas metálicas nas extremidades para que haja um equilíbrio maior no arremesso  do osso. O jogo do osso é praticado na “cancha”. As canchas normalmente estão implantadas  em bolichos, bodegas ou pulperias  na maioria das vezes locais não muito recomendáveis a freqüência. Também, aparecem canchas de jogo do  osso em carreiradas de cancha reta, festa de Igreja e outros locais de reunião festiva, inclusive em alguns festivais nativistas, como atividade paralela.  A cancha é uma pequena área de terra, préviamente preparada num solo mais ou menos parelho não muito duro nem muito macio. Deve Ter uma braça de largura e três de comprimento. No meio  crava-se uma estaca de cada lado  onde se amarra uma piola (cordão, barbante ou o que o valha) para demarcar a Raia. Também pode-se demarcar a raia, simplesmente com um risco no chão. Nas  cabeceiras deve existir um local de terra mais macia, tipo um barrinho para que o osso  ao tocar o chão não salte, este local denomina-se de batedor. Os jogadores postam-se na cabeceira da cancha  um joga daqui para lá e o outro de lá para cá. No meio fica o coimeiro, responsável pela parada ou banca. É o guardião dos valores apostados e desempenha a função de juiz. Nos locais do jogo costuma  reunir diversas pessoas, os jogadores, curiosos e os que jogam “por fora”, isto é, aqueles que jogam no braço  de um dos  jogadores que estão realizando o jogo. Os jogadores prontos para iniciar o jogo cada um posta-se numa raia e prepara-se para o primeiro tiro, fazer com que o osso caia no local determinado na raia do adversário, se cair de lado é nada. Nada vale a jogada. Caindo com a parte lisa para cima é culo, caso o seu antagonista   jogue a clave  “suerte” está ganha  a parada e imediatamente o coimeiro paga a banca descontando “o barato ou coima” que pertence ao pulpeiro que quando não é o próprio coimeiro  é o dono da cancha. O barato ou coima é um percentagem, uma parte do  montante do jogo. Este jogo não possui regras definidas, o que faz com que em muitas oportunidades hajam calorosas discussões e a palavra do juiz de pouco ou quase nada vale. Este é o grande motivo de que o jogo do osso, na maioria das vezes é por demais tumultuado e perigoso. Mesmo assim muito apreciado na campanha e nos pontos de reunião dos desocupados, aventureiros e jogadores ou, simplesmente, por aqueles que gostam de manter esta atividade  para transmitir a outras gerações.

 

CRESCENTE DE SETEMBRO DE 2008.

CALTARS – “TO”


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Prenda

PRENDA, etimologicamente procede do latim (pignera) o que significa penhor. Considera-se, também predicado, qualidade, dote, habilidade, aptidão (é moça de várias prendas artísticas), isto é : moça da várias qualidades, moça da várias habilidades. Prenda, segundo Aurélio Buarque de Holanda Ferreira, também é entendido pelo objeto que no jogo de “prendas” o perdedor entrega ao ganhador para identificar sua condição de perdedor na aplicação da penalidade. E, no Rio Grande do Sul é entendido como jóia.O dicionário regionalista de Zeno e Rui Cardoso Nunes afirma que: prenda é substantivo comum e é uma jóia, uma relíquia, um presente de valor. Em sentido figurado, aqui no Rio Grande do Sul é a MOÇA GAÚCHA. O Roque Calage, juntamente com Luiz Carlos de Moraes, Antônio Álvares Pereira Coruja e Romanguera Corrêa na obra Vocabulário Sul-Rio-Grandense citam prenda como: Jóia, relíquia, presente de valor (Manoel do Carmo em Cantares da Minha Terra) Com a diferença como se vê que jóia, aqui é a jóia em si, ao passo que no vernáculo é a jóia ou objeto que se dá como lembrança. Neste panorama nasce no Rio Grande do Sul, no ano de l948 um interesse pela valorização das coisas do Rio Grande. Este interesse vem acompanhado do culto às Tradições da nossa Terra, juntamente com isto incrementa-se o uso da indumentária gaúcha, com a evolução do Movimento ocorre o fenômeno da socialização do “galpão”. Este passa a ser um local de reuniões sociais e não mais aquele local de guardar instrumentos de trabalho e depósito de produtos. Nesta altura dos acontecimentos, 24 de abril de 1948, surge no seio da Sociedade Rio-Grandense o “35”, CTG com Patronagem significando diretoria e no Movimento Tradicionalista Gaúcho quem não pertence a diretoria, isto é, os associados das Instituições Tradicionalista são chamados de “peão” e as associadas foram designadas de “prendas” foi este o termo que o gaúcho encontrou para respeitosamente homenagear a mulher gaúcha “prenda”. Uma jóia. Uma pessoa que reúne diversas qualidades e, assim ficou consagrada na Querência essa denominação para as associadas dos Centros de Tradições Gaúchas. Com a implantação do Concurso de Prendas, no Movimento Tradicionalista Gaúcho do Rio Grande do Sul, houve a necessidade de dividir em categorias pois não seria justo uma prenda de dezessete anos, por exemplo, cursando o Segundo Grau competir em concurso com uma de nove ou dez anos, estudando ainda no Ensino Fundamental. Conhecido este termo podemos concluir que “prenda”, no sentido figurado, aqui no Rio Grande do Sul é a moça que atua nos Centros de Tradições Gaúchas com mais de dezoito anos. Mesmo porque, no concurso de prendas existe uma classificação por idade previsto na alínea “a” do inciso V do Regulamento do Concurso de Prendas do MTG categoria MIRIM as concorrentes deverão Ter a idade de 09 a 13 anos, na categoria JUVENIL de 13 a 17 anos incompletos e a categoria adulta deverá ter no mínimo 17 anos completos.

CHEIA DE Agosto DE 2008.

CALTARS – “TO”!


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Poncho

P O N C H O

 

 

ESTE MEU PONCHO GAUDÉRIO,

DE PURA Là ENTRE  O MEIO.

PARCEIRO PARA TEMPO FEIO,

E PARA REPONTES DE TROPA.

NEM O MINUANO “LHE” ENSOPA,

POR SER O MELHOR ABRIGO.

PODE SER NOVO OU ANTIGO,

NALGUMA CRUZADA INCERTA,

POIS JÁ SERVIU DE COBERTA,

O  QUE  CARREGO COMIGO.

 

PONCHO PÁTRIA É  IDENTIDADE,

DE QUEM TROPEIA DE A CAVALO.

SEMPRE OUVE O CANTAR DO GALO,

ENFRENTANDO O RIGOR DA LIDA.

É UM “BAITA” EXEMPLO DE VIDA,

PARA AS  GERAÇÕES DO FUTURO.

NO LABOR OU ALGUM  APURO,

SEMPRE CUMPRIU SEU PAPEL.

SINTO ALVOROÇAR-SE AO TROPEL,

E FICA MAIS TENSO NO ESCURO.

 

COM O MEU PONCHO POR PERTO,

ME SINTO  UM TAURA  MONARCA,

POIS TRAGO COMIGO ESTA MARCA,

DE HOSPITALEIRO E TERRUNHO,

É UM BRADO CERRANDO O PUNHO,

PRA QUEM  GUARDEIA O QUE É SEU.

ME ORGULHO AO OLHAR  O MEU,

SOVADO  PELO VENTO E SUOR.

SÓ ELE  E  DEUS NOSSO SENHOR,

QUE GUARDAM  RESPEITO MEU.

 

COM  O PONCHO NA GARUPA,

VOU GASTANDO HORIZONTES.

ENTRE MANGUEIOS E REPONTES,

FINDA O  DIA E  A  NOITE VEM.

COM SUAS  ASTÚCIAS  TAMBÉM,

ENCURTA A VISÃO  DO TROPEIRO.

CHEGA ANTES QUEM SAI PRIMEIRO,

E TEM  O  NECESSÁRIO PRA O OFÍCIO.

SUPERA QUALQUER SACRIFICIO

QUEM, TEM PONCHO POR PARCEIRO.

 

ABRIGO DE TAURA PAMPEANO,

SURRADO DO TEMPO E PENDENGA.

ALGUNS RISCOS DE CHERENGA,

MARCADOS  NOS ENTREVEROS.

MANTEVE-SE  ENTRE PARCEIROS,

SERVINDO DE  AMULETO E ESCUDO.

MEU PONCHO ACOMPANHOU  TUDO,

ATÉ  EM  ESCARAMUÇAS DE BALA,

A SORTE  É  QUE ELE NÃO FALA,

SABE MAS SE MANTÉM MUDO.

 

           A EVOLUÇÃO E O PROGRESSO,

MUDARAM  HÁBITOS E COSTUMES.

O TEMPO DIVIDIU OS TAPUMES,

DO PAMPA  GAÚCHO E XUCRO.

HOJE  A ORDEM É VISAR  LUCRO,

E COBRIR LONGAS DISTÂNCIAS.

NÃO SE MEDE  CIRCUNSTÂNCIAS,

SE OS ATOS SÃO BONS P’RA O POVO.

                         RAIZ, VALE MENOS QUE O RETOVO,

                         MUDAM VALORES E IMPORTÃNCIAS.

 

OS TRAJES  SOFRERAM AJUSTE DO TEMPO,

E O  PONCHO FOI PARA  O BAU DA HISTÓIRA.

AO OLHA-LO REVEJO EM  MINMHA MEMÓRIA,

ANDANÇAS : O ONTEM, O HOJE E  O  AMANHÃ.

A TRADIÇÃO   ENTREGA PORQUE FOI GUARDIÃ,

DO COSTUME GUAXO COM FIEL COMPETÊNCIA.

TRASTE  PERPETUANDO PELA EXISTÊNCIA,

DO AMOR SAGRADO  DESTE  MEU LIRISMO.

CONSERVO COM GARBO ESTE   TELURISMO,

QUE NASCEU E VIVE NA MINHA QUERÊNCIA..

 

MINGUANTE DE AGOSTO DE 2000

CALTARS – “TO”.


Lembranças

 

 CHEGOU DESPACITO E FICOU,

NAS PLAGAS COMO SEU DONO.

ERA LINDO VER O ENTONO,

DO PIÁ, DO MOÇO, DO TAITA.

POR ENTRE ACORDES DE GAITA,

E SUA MENTE PREVILEGIADA.

SE CONSAGROU NA PAYADA,

E COMPOSIÇÕES MISSIONEIRAS.

DESFRALDOU ESTAS BANDEIRAS

ORGULHA DA GAUCHADA.

 

 

DECLAMOU PAYADAS E ESCREVEU,

COM BRIO, TALENTO E VISÃO.

POIS, “DE FOGÃO EM FOGÃO”,

PASSOU A QUERÊNCIA PAMPEANA,

MONARCA DE ESTILO BUERANA,

LOGO VEM “GALPÃO DE ESTÂNCIA”,

COM MAIS RECHEIO E SUBSTÂNCIA,

“POTREIRO DE GUACHOS”, APARECE.

“VOCABULÁRIO PAMPEANO”, É PRECE;

E DÁ INFORMAÇÕES EM ABUNDÂNCIA.

 

 

SUAS OBRAS SÃO MANANCIAIS,

DA NOSSA CULTURA GAUDÉRIA.

CADA QUAL DELAS, MAIS SÉRIA,

AO ESTILO DE SEU AUTOR.

NA TRADIÇÃO FOI DOUTOR,

FOI TAPEJARA EM REPENTE.

PARA OS QUE ESTIMAM O PAGO.

NÃO FOI POR FALTA DE AFAGO,

QUE HOJE SE ENCONTRA AUSENTE.

 

 NÃO HÁ RINCÃO QUE NÃO TENHA,

ALGUMAS DE TUAS POESIAS.

ESCREVER SEMPRE PODIAS,

SEM MEDIR DIFICULDADE.

COM ORGULHA E SEM VAIDADE,

ABRISTE MUITOS CAMINHOS,

FLORIDOS E SEM ESPINHOS;

PARA QUEM PEDIA CARONA.

A SORTE NÃO ABANDONA,

OS QUE CONSEGUEM PADRINHOS.

 

BONDADE TINHA DE SOBRA,

E PREPARO MAIS QUE O PRECISO.

JAMAIS CALCULOU PREJUÍZO,

DOS DOTES E DO QUE FEZ.

CADA UM TINHA SUA VEZ,

NA SENSATEZ  DO COMPANHEIRO.

DA VARANDA PARA O TERREIRO,

BUSCAVA O CAMINHO ASTUTO.

NUNCA HAVERÁ SUBSTITUTO,

PRA  O PAYADOR MISSIONEIRO.

 

MIL GRACIAS. TE AGRADEÇO,

EM NOME DOS QUE AQUI ESTÃO.

QUE TE RECEBE, O PATRÃO,

E TENHAS LUGAR DE DESTAQURE.

POIS NÃO SE MUDA O SOTAQUE,

DO QUE FIZESTE E AQUI FICA.

SÓ TU MESMO JUSTIFICA.

FOSTE TAITA SEM SER MAU,

JAYME CAETANO BRAUN,

O RIO GRANDE TE GRATIFICA.

 

NA MISSÃO DE DAR CIÊNCIA,

SE OPUVE, SE VÊ E SE ESCREVE.

SEM A INTENÇÃO  DE SER BREVE,

NEM  CISMA DE SER EXTENSO.

É PRÁ REGISTRAR, O QUE PENSO

SOBRE A PERDA DESTE VALOR;

QUE DEDICOU TANTO AMOR

ÁS GENTES E A TERRA NATAL.

REGISTRA A “VIDA REGIONAL”,

SAUDADES; DO POETA PAYADOR.

 

 

                                 MINGUANTE DE AGOSTO DE 1999.

                                 CALTARS  -  “TO “

 

 

 


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Tirador

 

 

 

                        O tirador é uma peça da indumentária campeira, a qual, segundo o professor Antônio Alvares Pereira Coruja, é  uma peça de couro sovado que os laçadores põem ao redor da cintura quando laçam a pé; serve para  amparar as ilhargas ao laçador quando estica o laço. Também é usado para pealar com as mesma finalidades, isto é proteger o usuário do tirão do laço. Sobre esta peça as  referência que  primeiro aparecem  na querência de São Pedro m são de Jean-Baptiste Debret, refere-se a um pedaço de couro pendurado na cintura que faz parte de seu costuma. Nicolau Dreys, quando aqui esteve, (1820) também  faz referência ao tirador: ‘ os gaúchos usavam por cima do chiripá, o cingidor, pedaço de couro que destinava-se a proteger a perna da fricção do laço. O tirador, sendo exclusivamente uma peça da indumentária de serviço, com o passar do tempo sofreu modificações quanto ao seu formato, dimensão e uso, porém, sempre como traste de atividades campeiras.  Os campeiros destros usam o tirador na lado esquerdo, quando estão a pé, quando estiverem montados e vão desempenhar atividades com o laço, passam o tirador para o lado direito, agora com a função de proteger a roupa contra o atrito dos rodilhas do laço. O tirador, também sofreu um processo de adaptação e funcionalidade, na fronteira, nas missões, planalto, serra e Bagé, cada  uma dessas regiões o tirador adquiriu  um tipo, porém com a mesma finalidade, sempre para proteger as vestes  e os membros inferiores do usuário. O tipo de tirador mais usado na fronteira é  retangular, com flécos curtos e somente na parte inferior com dois reforços nos cantos superiores de onde saem tiras de couro para prendê-lo à cintura, seu comprimento atinge, mais ou menos, a boca do cano da bota. O tirador usado na região missioneira é muito semelhante ao da fronteira, também de formato retangular, com flécos curtos, reforços nos cantos superiores e preso a cintura com um cinto com fivela, uma espécie de guaiaca. Na região do planalto  o tirador  apresenta-se com a parte inferior de forma arredondada, como se fossa um retângulo, porém,  os cantos inferiores arredondados com flécos em toda sua volta, menos na parte superior  onde prende uma tira de couro para ajustar à cintura do usuário. Na serra o tirador também, apresenta-se em forma retangular, com reforços nos cantos  superiores onde prende uma tira de couro para fixá-lo à cintura, flécos longos, quase metade do cumprimento do tirador,  somente na parte inferior da peça, e, o tipo tirador usado na região de Bagé um couro retangular, semelhante a todos os outros quanto ao comprimento, ultrapassa levemente a boca do cano da bota, cantos superiores reforçados onde fixa tiras de couro para ajustar à cintura, este é o único tipo que não tem flécos. Em síntese estes são os tipos de tirador que o Instituto Gaúcho de Tradição e Folclore apresenta aos gaúchos interessados em conhecer ou usar esta peça da indumentária campeira. O tirador é uma peça que só se usa em serviço, portanto, não é recomendável e nem tradicional que nela o gaúcho pinte ou aplique desenhos ou letras.  Também  não é tradicional nem recomendável o seu uso em atividades sociais, tais como fandangos, festas religiosas, almoços e jantas em locais coberto, em síntese: não se usa tirador em toda e qualquer atividade social.  O tirador é usado em  atividades campeiras ou qualquer   outra atividade eqüestre, porém, é lógico seu usuário há de ter conhecimento e perícia  com o manejo do laço.

 

MINGUANTE DE JUNHO DE 2004

CALTARS – “TO”


Faca

                        Informa-nos a Academia Brasileira de Letras que, faca é um instrumento cortante formado de uma lâmina, relativamente curta e um cabo de madeira, chifre, metal ou qualquer outro material que desempenhe a função. Os dicionaristas descrevem este objeto como sendo “instrumento cortante constituído de lâmina e cabo”.  A faca, como tantos outros objetos, também  foi contemplada com inúmeros epitetos, tais como: chavasca, biguana, carneadeira, língua de vaca, língua de chimango, prateada, aparelhada, xerenga, ferro branco, arma branca, faca de rasto, etc. Este instrumento apresenta-se  de várias  formas, cada uma afeiçoada a  proposta e as particularidades funcionais  para seu uso e desempenho. A faca apresenta-se na cozinha como utensílio, no preparo e aperfeiçoamento dos ingredientes  necessários à arte culinária. É ferramenta primordial do guasqueiro,  que corta e desquina o tento para trançar apeiros de montaria, cordas, laços; confeccionar maneadores, ou qualquer outro artigo que tenha  como matéria prima na sua constituição, o couro. Companheira fiel do campônio  nas carneações, nas castrações, nas lidas de campo. Quando no desempenho dessa atividade, por vezes, se faz necessário cortar uma corda, para evitar  um acidente ou salvar um animal; para consertar  um apeiro ou sangrar uma rês que se quebrou. Nas regiões coloniais, a faca participa  das atividades agrícolas, para  falquejar  um canzil, para auxiliar em pequenos consertos, para sovar a palha e picar o fumo na feitura do palheiro; é ainda ferramenta primordial na colheita e no preparo de rações para  os animais piqueteiros ou de estrebaria. Na lúdica, marcou presença confeccionando bodoques, arcos, flechas, cavalos de pau e outros brinquedos de madeira. É protagonista  no jogo de tejo,  na dança  dos facões e  da faca  maruja. Esta faca utensílio, ferramenta, este objeto que  colabora  em diversas atividades, prestando incomensuráveis serviços, quando usada no trabalho, é considerada ferramenta. Por outro lado, pode se transformar numa terrível arma, quando implantada na ponta de uma vara ou taquara servindo como lança para defender os interesses deste chão. Muitas vezes foi usada desta forma. A faca, ferramenta de trabalho, também desempenhou tarefas malignas e destruidoras, nas mãos dos incautos,  covardes e assassinos degoladores  que sacrificaram vidas,  sob a égide de uma facção política predominante na época, que defendia uma filosofia tétrica, enigmática e  tendenciosa.  Observa-se que a faca é usada como ferramenta e, a mesma faca ferramenta, também pode ser  usada como arma. A exemplo disso             lembramos com pesar, os inúmeros delitos praticados através desse instrumento. O Movimento Tradicionalista Gaúcho do Rio Grande do Sul, para melhor orientar seus filiados,  normatizou no seu Regulamento Geral, ( Art. 272 – Em bailes, fandangos e outras atividades sociais, especialmente em recintos fechados, é vedado o uso de armas, chapéu, esporas, boleadeiras, tirador e outros utensílios campeiros. Parágrafo Único – Aplica-se o disposto neste artigo também para os conjuntos musicais.) Imaginem os senhores, a dificuldade que os dirigentes do M TG/RS  enfrentam para disciplinar o procedimento social dos filiados, normatizaram a norma, isto é, trouxeram para o bojo do seu Regulamento Geral, o que preceitua a Lei Penal Brasileira Dlei nº3.688 de 03 de outubro de 1941, publicada no DOU de 13 de outubro de 1941. ( Art. 19 -  Trazer consigo arma fora de casa ou dependência desta, sem  licença da autoridade.) Pasmem os senhores, com tudo isso, com todas essas informações, é comum em qualquer querência deste Rio Grande abençoado, contemplarmos patrões, peões farroupilha, associados, etc., portando faca dentro dos CTGs. Pessoas estas, de projeção administrativa e cultural  das entidades tradicionalistas, exatamente as que têm obrigação de dar exemplo aos demais. Será que precisamos dizer que o galpão “símbolo”, sofreu um processo de socialização  e hoje, o C T G  é tão-somente um local, onde  se desenvolvem atividades sociais e culturais, portanto ,alheias as atividades com uso de faca. Ah. . . sim! O flébil pretexto:  para cortar o churrasco. . . Esqueceram-se, os gaúchos de ensaio, que o churrasco servido à mesa deve ser cortado com  o talher que lhe disponibilizaram. Quando o churrasco  for a campo, espeto cravado no chão, aí sim, podemos normalmente, segurar com os dedos polegar e indicador, um pedaço de carne e “passar a faca”.  Ainda poderão os oniscientes argüirem em defesa da imagem do centauro dos pampas, o qual sempre foi visto portando faca. É verdade, porém, sempre no desempenho de atividades campeiras ou dentro das suas propriedades.  Será que ainda há necessidade de informar que a faca não faz parte da pilcha social? Que só é permitido o uso da faca em atividades campeiras e, dentro dos CTGs,  estas atividades não se realizam. Ilustres senhores, responsáveis pelo zelo da cultura Rio-Grandense, nós não somos obrigados a normatizar procedimentos, mas se o fizermos, devemos cumpri-los, sob pena de sermos taxados de, na melhor das hipóteses, sibilinos e, isto não deve acontecer com um  Movimento  altiloqüente igual o nosso.  ou deve?

 

MINGUANTE DE NOVEMBRO DE 2004

CALTARS – “TO”.

 


Mala-de-Garupa

                                                   A modernidade, sobremaneira, coloca algumas pessoas em situações desagradáveis, com todo respeito, quero acreditar que seja por desinformação. Vamos analisar um procedimento que alguns “gaúchos”, normalmente, quando participam de reuniões ou festas promovidas pelo Movimento Tradicionalista Gaúcho do Rio Grande do Sul, digo pelo MTG, porque sendo promovida por qualquer Instituição Tradicionalista filiada ao Movimento, a ele está representando. O nosso dicionarista  Caldas Aulete informa: “mala, saco de couro, lona, madeira, oleado ou pano, fechado ou não com cadeado ou chave, em que se leva roupa em viagem,  papeis ou outros quaisquer objetos”. Refere-se ainda ao Rio Grande do Sul quando cita: “mala-de-garupa,  espécie de alforje que  se põe na parte superior do lombilho ou do serigote”.  A mala-de-garupa, no Rio Grande do Sul segundo descrição de Rui e Zeno Cardoso Nunes não difere do  Vocabulário Sul-Rio-Grandense de Romangera Corrêa e  outros informa que é um “pequeno saco com uma abertura longitudinal no centro, que se carrega na parte posterior do lombilho ou serigote, à guisa de alforjes, por baixo dos pelegos”.  Agora sabemos, o que é uma mala-de-garupa.  Serve para transportar gêneros de um lugar para outro. Era usada quando o camponês comprava determinados produtos na “venda”, hoje supermercado e transportava para a sua residência na parte posterior interna do lombilho, sob a badana e os pelegos. Esse é o local destinado ao uso da mala-de-garupa. Com o passar do tempo, as vilas e cidades foram abrigando a maior parte dos camponeses. As carruagens foram tomado o lugar das montarias e o veículo automotor substituindo aquele meio de transporte e a maneira de transportar  as mercadorias também foi se afeiçoando a nova realidade e este objeto, mala-de-garupa, passou a fazer parte do Folclore Histórico. Portanto,  mala-de-garupa é para quem se desloca a cavalo e, não no ombro dos que andam a pé e em  determinados locais que não recomendam o uso desse objeto. A mala-de-garupa é para transportar mercadorias da origem destas, para a garupa do cavalo e daí para o local que se destinam. Não conhecemos nenhum registro de alguém portando mala-de-garupa no ombro em um culto religioso. O local não é adequado ao uso desse objeto. Vamos fazer uma comparação elementar, tosca e até, sobremaneira agressiva, pode ser que assim os usuários desse desatualizado objeto consigam ter noção do onde e como devem usá-lo. Que tal comparecermos a um espetáculo no teatro São Pedro, usando um guarda-chuva aberto e assim assistirmos a sessão? A mesma inconveniência cultural causam os que usam peças ou objetos fora da proposta de sua finalidade. Existem poucas coisas mais ridículas do que uma pessoa usar indumentária, peça de  indumentária, objetos, adereços ou seja lá o que for, fora da proposta e da finalidade que se propõem. Quem usa um  “traste” em local  inadequado e alheio à sua finalidade, não fica mais nem menos gaúcho, tão-somente demonstra  o índice do seu conhecimento.

 

                        CRESCENTE DE JULHO DE 2007

                        CALTARS –  “TO”


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Guaiaca

                              Guaiaca, termo que  aculturou ao linguajar regional.           Tem origem etimológica no quíchua “huayaca”, que significa saco. Pelo espanhol platense “guayaca”. Esse termo, juntamente  com o objeto, conviveu nestes pagos, tendo sido aceito pelos camponeses, por atender as necessidades do homem rural. Aqui permaneceu ate os dias atuais, com o nome de guaiaca. Peça adotada pelos gaúchos por sua praticidade no transporte de moedas, relógio, cédulas “as pelegas”, e armas. Nosso dicionarista Aurélio Buarque  de Holanda Ferreira, define o termo como: ” cinto largo de couro ou de camurça, provido de bolsinhos, usado para se guardar dinheiro e objetos miúdos, e também para  o porte de armas”. Observa-se, que os comerciantes desse tipo de mercadoria, colocam a disposição dos usuários objetos que nada têm a ver com o nome. São outros artigos, outras mercadorias que, na maioria das vezes, nem o usuário, nem o comerciante sabem  do que se trata. Qualquer coisa que seja de couro que se enrole na cintura é guaiaca. Então, saímos por ai  ridiculamente, querendo ser o que não somos  e  acabamos sendo o que não queremos. Portanto, o que não faz parte da nossa indumentária tradicional autêntica, não deve ser usado e, se usarmos pode passar a servir de   graça para os que realmente conhecem e identificam nossa autenticidade tradicional. Mesmo para os que não a usam  mas reúnem conhecimento suficiente  e observam o desalinho que a pessoa se apresenta.  A nossa guaiaca, é constituída de uma tira de couro larga, forrada ou não, iniciando da presilha da fivela para a esquerda de quem a usa um bolsinho com uma abertura na   parte superior para cruzar o corrente do relógio, logo após  outro  bolsinho semelhante, porém este  sem abertura na aba que fecha com botão de pressão. Continuando, agora atingindo a parte posterior da cintura do usuário uma bolsa maior com, aproximadamente o tamanho das duas anteriores, com três botões de pressão na   aba que a fecha. Esta balsa, normalmente, é para o uso “das pelegas”, (cédulas – dinheiro de papel).  Do  lado direito o coldre, ou simplesmente uma correia com uma fivela para prende-la. Quando o usuário desejar,  portar o coldre, o faz através dessa fivela, termina em lingüeta da largura da fivela, geralmente com duas carreiras de ilhós. È usada em atividades sociais ou  serviço, com ou sem faixa. È óbvio que, as peças de serviço são mais rústicas e as  usadas em atividades sociais, com maiores refinos em seu acabamento e é aconselhável usa-la sem o coldre.

 

MINGUANTE DE MARÇO DE 2004.

CALTARS – “TO”

 

 


Chapéu

 

                         Os veículos de comunicação atualizando todo e qualquer  procedimento evolutivo que ocorra, em qualquer área oferecem grande disponibilidade de informações a qualquer camada  social, cultural, ou econômica, dado a facilidade que hodiernamente, os órgãos informativos divulgam. Estes mesmos organismos informativos disponibilizam  e registram  fatos, feitos e procedimentos que nem sempre são recomendáveis que estejam ao alcance de pessoas que ainda não detêm uma formação cultural sólida. Neste caso, a informação passada pelo veículo de comunicação: rádio, jornal, televisão, etc. é recolhida como sendo  correta.  Entretanto, em muitas oportunidades o procedimento divulgado revela exatamente o que não deve ser feito. Sem citar  casos mais graves que se referem ao procedimento  familiar, social e religioso. Vamos nos deter, simplesmente, no cotidiano, no menor conhecimento que qualquer pessoa deve possuir para se considerar cidadão. Hoje, o que todos querem ser, porém, grande número dos que isso desejam, procedem de maneira diversa, a de um cidadão.  Convido-os para  analisarmos  tão-somente o uso do chapéu. Francisco da Silveira Bueno, nos informa que chapéu é “substantivo masculino. Cobertura de feltro, palha, etc. com copa e abas, para a cabeça”. Antônio Houaiss, afirma ser o chapéu:  “proteção para a cabeça dos homens ou das mulheres, de forma e aspecto variável”. O professor Câmara Cascudo em Dicionário do Folclore Brasileiro cita “ representa a cabeça, sede do juízo, do raciocínio da vontade. Outrora como toda a gente não dispensava o chapéu, sair sem ele  dizia-se  sem   cabeça.Andar sem a cabeça”. Também refere na mesma  obra: “os discípulos de Freud dizem que o chapéu, representação do corpo, é símbolo fálico”.  Paixão Cortes, através da obra O Gaúcho, ensina-nos que “o chapéu como abrigo para a cabeça, no sentido de protegê-la contra o sol, o calor, a chuva ou simplesmente como adorno, tem, através dos tempos e dos povos, nas diferentes regiões do mundo, tomado múltiplas formas”. Antes de revelar nossa observação sobre o chapéu, vamos dirigir-lhe uma pergunta. Uma pergunta  sobre procedimentos que ocorrem diversas vezes por dia. Fatos singulares que a cada momento se nos apresentam e com a maior espontaneidade, até mesmo sem refletir, nós o realizamos. Você é capaz de cumprimentar uma pessoa de chapéu na cabeça? (Entenda-se  como chapéu toda e qualquer cobertura que se apõe na cabeça, tal como: boné, cangol, bico-de-pato, boina,  etc.) Caso você responda positivamente, nosso assunto encerra-se por aqui. Mas, como temos certeza que você responderá  não, vamos continuar com o seguinte questionamento: você entra no clube, na casa de uma pessoa, almoça ou janta de chapéu na cabeça? É claro que não, pois todos os escritores anteriormente citados, disseram e nós sabemos, que o chapéu é um abrigo para proteger-nos da chuva,  do sol e das intempéries que em local coberto, isto é, dentro de casa não há necessidade de usarmos esse tipo de proteção, salvo quando ele é usado por senhoras  como adorno.  É comum no campo, um gaúcho passar por outro e ao cumprimentá-lo quando não tira o chapéu da cabeça, coloca a mão sobre a aba demonstrando nesse gesto, educação e respeito pela pessoa que cumprimenta. Isto é uma realidade, que ocorre com freqüência, no meio rural. Hoje, observa-se nos restaurantes, e em alguns Centros de Tradições Gaúchas que os freqüentadores participando das atividades sociais de chapéu na cabeça. A tarefa de informar sobre tais procedimentos está a cargo dos pais, “porque a educação, começa em casa”, depois: da Vice-presidência de Cultura do MTG, dos Departamentos Culturais dos CTGs, dos patrões e dos educadores ou . . .  os princípios básicos da tradição gaúcha foram banidos do rol de conhecimentos que identificam  como monarca, o centauro dos pampas, que ainda não era culto, mas sem nenhuma dúvida, por excelência ,educado.

                                              

MINGUANTE DE FEVEREIRO DE 2004

CALTARS –  “TO”.


Mala-de-Garupa

 

 

                                                   A modernidade, sobremaneira, coloca algumas pessoas em situações desagradáveis, com todo respeito, quero acreditar que seja por desinformação. Vamos analisar um procedimento que alguns “gaúchos”, normalmente, quando participam de reuniões ou festas promovidas pelo Movimento Tradicionalista Gaúcho do Rio Grande do Sul, digo pelo MTG, porque sendo promovida por qualquer Instituição Tradicionalista filiada ao Movimento, a ele está representando. O nosso dicionarista  Caldas Aulete informa: “mala, saco de couro, lona, madeira, oleado ou pano, fechado ou não com cadeado ou chave, em que se leva roupa em viagem,  papeis ou outros quaisquer objetos”. Refere-se ainda ao Rio Grande do Sul quando cita: “mala-de-garupa,  espécie de alforje que  se põe na parte superior do lombilho ou do serigote”.  A mala-de-garupa, no Rio Grande do Sul segundo descrição de Rui e Zeno Cardoso Nunes não difere do  Vocabulário Sul-Rio-Grandense de Romangera Corrêa e  outros informa que é um “pequeno saco com uma abertura longitudinal no centro, que se carrega na parte posterior do lombilho ou serigote, à guisa de alforjes, por baixo dos pelegos”.  Agora sabemos, o que é uma mala-de-garupa.  Serve para transportar gêneros de um lugar para outro. Era usada quando o camponês comprava determinados produtos na “venda”, hoje supermercado e transportava para a sua residência na parte posterior interna do lombilho, sob a badana e os pelegos. Esse é o local destinado ao uso da mala-de-garupa. Com o passar do tempo, as vilas e cidades foram abrigando a maior parte dos camponeses. As carruagens foram tomado o lugar das montarias e o veículo automotor substituindo aquele meio de transporte e a maneira de transportar  as mercadorias também foi se afeiçoando a nova realidade e este objeto, mala-de-garupa, passou a fazer parte do Folclore Histórico. Portanto,  mala-de-garupa é para quem se desloca a cavalo e, não no ombro dos que andam a pé e em  determinados locais que não recomendam o uso desse objeto. A mala-de-garupa é para transportar mercadorias da origem destas, para a garupa do cavalo e daí para o local que se destinam. Não conhecemos nenhum registro de alguém portando mala-de-garupa no ombro em um culto religioso. O local não é adequado ao uso desse objeto. Vamos fazer uma comparação elementar, tosca e até, sobremaneira agressiva, pode ser que assim os usuários desse desatualizado objeto consigam ter noção do onde e como devem usá-lo. Que tal comparecermos a um espetáculo no teatro São Pedro, usando um guarda-chuva aberto e assim assistirmos a sessão? A mesma inconveniência cultural causam os que usam peças ou objetos fora da proposta de sua finalidade. Existem poucas coisas mais ridículas do que uma pessoa usar indumentária, peça de  indumentária, objetos, adereços ou seja lá o que for, fora da proposta e da finalidade que se propõem. Quem usa um  “traste” em local  inadequado e alheio à sua finalidade, não fica mais nem menos gaúcho, tão-somente demonstra  o índice do seu conhecimento.

 

                        ESCENTE DE JULHO DE 2007

                        CSALTARS –  “TO”